04 - O que é memória?
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Memória. Uma palavra que evocamos muitas e muitas vezes na
vida, por vezes com sentidos ligeiramente diferentes. Quer dizer, não raro, os
significados que atribuímos a essa palavra possuem diferenças às vezes
gigantescas entre si. Assim, o que é memória? Qual a relação dessa palavra com
a História? Por que devemos nos preocupar em saber o significado dessa palavra?
Comecemos pela última pergunta. Mas por que logo pela
última? Na sociedade em que vivemos, tudo acaba sendo atravessado pelo sentido
de utilidade. Infelizmente, isso ocorre até mesmo com o conhecimento,
especialmente no campo popularmente conhecido como ciências humanas. Assim, por
que deveria eu – ou você – me preocupar com o significado da palavra memória?
Então, nenhum conceito científico, na verdade, qualquer
palavra, é algo dado, que surgiu por si mesmo. Se nos perguntamos sobre a
memória, é porque isso é algo importante para nós. De certa forma, faz parte de
quem somos.
Observe que o termo memória evoca o sentido inicial de
lembrança, isto é, a lembrança de cada pessoa enquanto indivíduo. Por vezes
tendemos a lembrar de certas coisas que nos ocorreram no passado, ora com
alegria, ora com tristeza. Logo, o termo lembrança frequentemente tem uma
característica afetiva. Afinal, lembramo-nos de algo que de certa forma nos
marcou, resultando em que sentimentos venham a aflorar em nossa mente. Por
exemplo, às vezes somos tomados pela lembrança de um amor que não se realizou,
ou a surra que nossos pais nos deram e que consideramos isso injusto.
Contudo, às vezes as nossas lembranças podem nos enganar. O campo conhecido como psicanálise demonstrou-nos que às vezes substituímos ou negamos uma memória que nos causa muita dor. E isso, em certas ocasiões é tão sério, que é preciso muito esforço para trazê-la à tona e assim a podermos compreender e assimilar, com vistas a que esse evento de nossas vidas não nos cause tanta dor.
Sobre a memória individual e a coletiva
A memória, porém, não é sempre individual. Eventualmente,
acontecimentos traumáticos em nossas vidas se confundem com o que ocorria em
nosso país, nosso grupo social, ou familiar. Os exemplos para tais são
infindáveis. Ainda assim, tentaremos abordar brevemente alguns. Um evento
traumático da História foi o Holocausto nazista. A memória do sobrevivente se
confunde com um campo muito maior, o Holocausto, a 2ª Guerra Mundial, e a
sobrevivência ou não de suas vítimas.
Outro exemplo notável, desta vez relacionado com Ditadura
Militar de 1964-1985, é o da vítima que sobreviveu à tortura, viu seus amigos e
entes queridos sofrerem torturas, ou morte. Para essa vítima, a percepção do
Regime certamente será negativa e crítica ao respectivo regime. Apesar disso,
cabe observar que algumas pessoas dizem ter sido a Era da Ditadura, a melhor de
suas vidas. Logo, haverá inevitavelmente um conflito entre a memória de
indivíduos e/ ou formações sociais distintas e a narrativa oficial do Estado
acerca desse episódio.
É nesse meio que surge a questão da memória coletiva. O que
queremos dizer com isso? Ainda que de modo não totalmente preciso, nos
referimos a um tipo de memória que é compartilhada por uma coletividade
qualquer. Pode ser de um grupo social, como uma família, uma aldeia, uma cidade
ou uma nação.
Mas o como isso é construído é que chama a atenção. Certo historiador
e cientista político se referia à nação como uma comunidade imaginada. A ideia
de comunidade nos faz lembrar de um grupo qualquer, que possui um algo que os
vincula, ou lhes constrói a identidade social. Por exemplo, no caso dos judeus,
o evento traumático do Holocausto.
Mas por que o autor, então, chama de comunidade “imaginada”?
Pare e pense um pouco. Quando ouvimos dizer de alguém que determinada pessoa possui
uma imaginação muito vívida, ou que viaja nas ideias, o que isso pressupõe? Que
esse indivíduo pensou num cenário que nunca aconteceu (ou que nunca
acontecerá).
Agora tente juntar as duas ideias: imaginação e nação. Podemos
deduzir disso que a ideia de nação é uma comunidade fictícia, unida por laços,
a bem dizer um tanto frágeis, como uma língua, uma cultura mais ou menos
estabelecida, ou uma história supostamente compartilhada por todos que compõem
essa comunidade.
Talvez o caro leitor pense: “mas são essas coisas que eu
compartilho com as pessoas que fazem parte do meu país!” Pense, então, na resposta
a essa pergunta: quantas pessoas do seu país[1]
você chegou a conhecer pessoalmente? Ainda que o caro leitor tenha
conhecido, milhares, ou talvez até, numa hipótese meio improvável, alguns
milhões, isso certamente não abrange todas as pessoas daquela nação. Fica claro
que a nação é uma comunidade fictícia, amparada num imaginário supostamente
compartilhado por todos os que fazem parte daquela nação. Logo, voltando à
ideia do autor: como se explica que pessoas se disponham a matar e a morrer
pela sua nação?
Bom, acho que já falei demais sobre a ideia de nação. De toda forma, a memória coletiva, indica a existência de uma espécie de vínculo, por vezes afetivo, entre a pessoa e o ideal de um grupo, um povo, uma nação.
Da memória coletiva à memória histórica
No entanto, o que marca o trabalho da História não é a
memória coletiva, embora tanto a memória individual, quanto a coletiva façam
parte do que chamamos de memória histórica. O que é, então, memória histórica e
o que a diferencia da memória coletiva?
Observe de novo a ideia de comunidade imaginada. Não raro,
os símbolos como língua, hino nacional, uma história “comum”, são tidos como definidores
de uma identidade coletiva: a de estado-nação. Mas como já vimos antes, esses
aspectos atuam muito mais no imaginário das pessoas que compõem um certo grupo –
e por consequência, um vínculo afetivo estimulado por esses símbolos – do que a
sua possibilidade de existência no mundo real.
Assim, como separar as emoções, ou, pelo menos, analisar
criticamente essas memórias individual e coletiva? É aí que entra a memória
histórica. Como poderíamos conceitualizá-la? A memória histórica é o fruto do
trabalho que o historiador faz na análise crítica (olha só, a crítica das
fontes aqui de novo!) dos produtos da memória. É com base nesse trabalho que o
historiador faz a chamada reconstrução do passado.
Como assim, reconstrução do passado? Certo filósofo afirma
que nós não podemos apreender o passado como ele realmente foi. Afinal, o
passado escapa pelos nossos dedos e tudo o que conseguimos é reconstituir, à
base dos vestígios documentais, esse passado.
O livro de História perfeito equivale à junção de fatos e
informações referentes a todas as pessoas que existem, já existiram, ou existirão.
Seria um trabalho infinito. Assim como seria impossível ler todos os livros
mencionados no conto A biblioteca de babel, do autor argentino Jorge Luis
Borges. A verdade é que seria impossível restabelecer completamente esse passado.
Todavia, embora os fatos em si não possam ser modificados, a
sua interpretação se modifica com o tempo. Por quê isso? Simples, porque nenhum
de nós tem a resposta definitiva para o que aconteceu no passado e no que isso
significa para nós, hoje.
Sugestões de Consulta
ANDERSON,
Benedict. Comunidades imaginadas. Companhia das Letras, 2008.
BENJAMIN,
Walter. Sobre o conceito da História. In: BENJAMIN, Walter. O anjo da história.
Autêntica, 2016.
SCARPIN, Fabio Augusto; TREVISAN, Mariana Bonat. História & memória: diálogos e tensões. Intersaberes, 2018.
BORGES, Jorge Luis. A biblioteca de babel. In: BORGES, Jorge Luis. Ficções. Companhia das Letras,
[1]
Existe uma diferença importante entre nação e país, uma vez que nem toda nação,
ou mesmo país, compõe um Estado Nacional organizado. Como exemplos, podemos
citar o chamado País Basco, a Catalunha e tantos outros que, com frequência possuem
aspirações separatistas. Apesar dessas diferenças, para facilitar a compreensão
básica, estou falando dos termos mais ou menos como sinônimos.
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